PARA SABER MAIS ...

ICNOESTRATIGRAFIA

 

"Se a compreensão da história geológica e biológica 

é vital em qualquer investigação paleontológica, 

a correlação estratigráfica é vital para esta compreensão".

Lucas 1993

Os fósseis índex ou de idade, que representam organismos abundantes e com grande dispersão geográfica, apresentam um enorme potencial para correlação, ou seja, para estabelecermos relações de idade de estratos - a ciência conhecida por bioestratigrafia. 

A bioestratigrafia identifica e distingue estratos pelo seu conteúdo fossilífero. Estratos com fósseis distintos constituem as unidades da bioestratigrafia. A unidade básica é a zona, normalmente chamada biozona. O tempo equivalente a uma biozona é o biocron. A biocronologia representa portanto a utilização dos fósseis para delimitarmos intervalos de tempo.

O principal objectivo da bioestratigrafia e da biocronologia é o de correlacionar estratos e os acontecimentos físicos e biológicos que esses estratos representam. Correlacionar é estabelecer a equivalência de idade ou posição estratigráfica de estratos encontrados em áreas afastadas. De uma forma simples, pode-se dizer que correlacionar é estabelecer a contemporaneidade de acontecimentos das histórias geológicas de regiões afastadas.

PARA SABER MAIS ...

CORRELAÇÃO ESTRATIGRÁFICA

 

Entre os animais marinhos, exemplos típicos de fósseis index são as amonites, os graptólitos ou os conodontes. Para o meio terrestre, os grãos de pólen fossilizados - palinomorfos - são geralmente empregues na correlação. Também são utilizados os dentes de mamíferos, especialmente os encontrados em depósitos do Mesozóico final e Cenozóico, úteis para o estabelecimento de “idades de vertebrados terrestres” ou biocrons (Lucas 1991, 1993), que, contudo, só têm (ainda) aplicação prática ao nível das épocas geológicas, já que raramente alcançam a resolução de estádios (idades) geológicos.  

As mais antigas amonites encontradas no Mesozóico de Portugal, Astoceras obtusum, assinalam a base do Sinemuriano superior (Jurássico inferior de S. Pedro de Moel) (Duarte 2003). Na Murtinheira (Cabo Mondego), a passagem Aaleniano - Bajociano caracteriza-se pela ocorrência de associações de amonites particularmente relevantes do ponto de vista bioestratigráfico: a base do Bajociano foi definida numa camada em que surge o primeiro aparecimento de representantes da associação contendo Hyperelioceras fucatum.

 

A utilização de pegadas de vertebrados como fósseis úteis para a bioestratigrafia foi iniciada por Haubold e Katzung (1978) e Haubold (1984, 1986) que criaram o termo palicnoestratigrafia. Estes investigadores propuseram uma série de zonas de pegadas, entre o Carbonífero final e o Jurássico inicial, numa altura em que as faunas terrestres eram cosmopolitas. “As zonas com pegadas definidas por Haubold (1984, 1986) para as duas primeiras épocas da idade dos dinossáurios (Triássico final e Jurássico inicial) apresentam nitidamente alguma utilidade numa escala global” (Lockley 1997).

 

Na opinião de Lockley (1997, 1998) “distintos tipos de pegadas (icnotaxa) podem ser correlacionados entre América do Norte, Europa e Ásia durante o Jurássico médio e o Jurássico final, depois do desmembramento do Pangaea”. De facto, Lockley et al. (1996, 1998, 2000) sugerem que a presença de alguns icnotaxa (Megalosauripus e Therangospodus) de teropodes na Eurasia e América do Norte indica a presença de conexões / ligações entre estas massas terrestres durante os inícios do Jurássico final (Oxfordiano - Kimmeridgiano). Lockley et al. (1998) consideram também que o icnotaxon teropodiano Carmelopodus ocorre em depósitos da mesma idade (Bajociano - Batoniano), tanto na América do Norte como na Inglaterra. Meyer e Monbarom (2002) identificaram pegadas Carmelopodus em duas jazidas do Batoniano de Marrocos. Pegadas de teropodes do final do Jurássico médio - inicio do Jurássico superior do Zimbabwe (Lingham-Soliar et al. 2003) podem ter afinidade com Megalosauripus. Meyer e Thuring (2004) identificaram pegadas dos inícios do Batoniano de Marrocos como "podendo ser atribuídas ao icnogénero Megalosauripus".

Correlação entre jazidas do Jurássico médio e do Jurássico final da América do Norte, Europa, Ásia e África, utilizando distintas pegadas atribuídas a teropodes (modificado de Lockley 1998). (http://www.nature.com/nature/journal/v396/n6710/box/396429a0_bx2.html ). Estas icnozonas correlacionam-se com estádios com  uma duração de cerca de 7 milhões de anos.

 

http://dinomania.free.fr/archives/fossil_empreintes.html

Pegada incluída no icnogénero Carmelopodus, do Batoniano de Marrocos. Pegada tridáctila do Zimbabwe com afinidade com o icnogénero Megalosauripus (na nossa opinião). A seta indica garra terminal do digito III (escala: 20 cm). A idade dos depósitos contendo esta amostra está ainda por esclarecer (provavelmente corresponde à passagem do Jurássico médio para o Jurássico final) (retirado de Lingham-Soliar et al. 2003)

 

Um distinto icnotaxon tridáctilo do Cenomaniano inicial – médio do Texas (Formação Woodbine), reconhecido originalmente por Lee (1997) como tem do origem aviana, Magnoavipes, poderá ocorrer também em sedimentos do Cenomaniano de Israel (Avnimelech 1966). Lockley et al. (1999) consideraram que muitas pegadas com morfologia idêntica ocorrem em vários níveis dos inícios do Cenomaniano do Grupo Dakota do Colorado e New Mexico, sugerindo que o seu produtor seria um teropode não aviano. De qualquer modo, “Magnoavipes é um icnotaxon distinto que parece potencialmente útil na correlação bioestratigráfica ao nível do estádio /sub-estádio” (Lockley e Rainforth 2002).

 

Magnoavipes:

A - exemplar tipo de M. loweri do Texas (segundo Lee 1997)

B - de Clayton Lake Park, New Mexico

C - de Gallinas Canyon, Colorado

D - de Bandemere, Colorado

E -  exemplar sem nome do início do Cenomaniano de Israel (segundo Avnimelech 1966)

(modificado de Lockley et al. 1999).

  

Esquema de duas das pegadas Magnoavipes, com grande comprimento, da jazida de Cerro de Cristo Rey (retirado de Kappus et al. in press).

http://palaeo-electronica.org/2003_1/track/issue1_03.htm

Mas Kappus et al. (in press) referem a presença de pegadas Magnoavipes numa jazida do Albiano final perto de Cerro de Cristo Rey (New Mexico). Esta ocorrência poderá alargar temporalmente a icnozona, embora as pegadas incluídas neste icnogénero apresentem um comprimento médio de 21,4 cm, com um máximo de 38 cm (Lee \997; Lockley et al. 2001), e algumas das pegadas de Cerro de Cristo Rey cheguem a alcançar os 60 cm de comprimento, o que Kappus e Cornell (2003) e Kappus et al. (in press) "consideram um pouco anómalo em comparação com as dimensões conhecidas anteriormente".

 

Os resultados obtidos por Farlow (2000) sugerem uma relativa homogeneidade das proporções dos pés dos grandes teropodes. Num trabalho publicado em 2001, Farlow sustenta que “as variações nas proporções das falanges dos pés não acompanham de perto as interrelações filogenéticas dos teropodes, especialmente nos teropodes de grandes dimensões”. Este investigador concluiu que espécies incluídas num dado clade de grandes teropodes têm muitas vezes proporções falangeais muito idênticas às de espécies de um clade diferente e têm também, muitas vezes, proporções idênticas às de outras espécies do seu próprio clade. O pessimismo de Farlow está patente quando sustenta que “não conseguimos atribuir pegadas de teropodes a um determinado taxon zoológico de grandes teropodes apenas com base na morfologia das pegadas” (Farlow 2001), embora conceda que pode ser atenuado “se o tipo de pegada e o taxon zoológico ocorrerem em rochas de idade comparável na mesma área geográfica e se a dimensão e morfologia da pegada e do esqueleto do pé do suposto produtor forem consistentes uma com o outro”.  Farlow (2001) suspeita que, embora possa ser possível reconhecer sinapomorfias nas proporções das falanges dos teropodes (Olsen et al. 1998), elas serão úteis sobretudo em níveis taxonómicos elevados, sugerindo que “raramente poderão ser úteis na distinção entre clades dentro dos principais grupos de dinossáurios” e duvidando que “as sinapomorfias de proporções dos pés possam ser reconhecidas em clades de teropodes de grandes dimensões”.

 

Farlow e Chapman (1997) apresentaram 4 possíveis razões para que a anatomia do pé de dois potenciais produtores de pegadas seja morfologicamente similar, produzindo pegadas idênticas e tornando assim difícil (ou impossível) a sua atribuição a um produtor específico:

“1. Ambos os taxa retêm a forma primitiva do pé a partir de um antepassado comum, uma morfologia primitiva do pé que também partilham com outros taxa.

2. Ambos os taxa desenvolveram uma morfologia do pé semelhante que não partilham com nenhuns outros taxa, porque fazem parte de um grupo monofilético

3. Os dois taxa não são parentes próximos, mas desenvolveram independentemente uma morfologia do pé idêntica, devido a semelhanças funcionais associadas com um modo de vida comparável.

4. Um taxon retém a forma primitiva do pé e o outro taxon reverteu para essa forma a partir de uma condição mais derivada”.  

E qual destas explicações será a mais correcta para interpretarmos pegadas com morfologia semelhante? É pouco provável que alguma vez sejamos capazes de decifrar qual destas 4 razões estará na base dessa semelhança. Mas como “os grupos filogenéticos são reconhecidos apenas com base na definição de características que são presumidas como sendo características derivadas partilhadas, só a segunda condição é válida e ela requer que a anatomia do pé se altere na mesma taxa que as características definidoras do taxon se vão alterando. Assim, os icnotaxa definidos com base na morfologia geral só se podem correlacionar com taxa osteológicos (em clades monofiléticos) apenas e se a segunda condição é satisfeita” (Farlow e Chapman 1997). E os gráficos apresentados por estes investigadores sugerem que frequentemente este não será o caso.

   

Segundo Smith e Farlow (1999), “esta necessidade de que a anatomia do pé se altere na mesma razão que as características que definem o postulado taxon osteológico se alteram é importante para a aplicação das pegadas de dinossáurios na paleoecologia”. Se for este o caso, haverá portanto uma falta de resolução nas correlações entre taxa dinossaurianos esqueléticos e taxa baseados em pegadas. “Assim sendo, isto afecta significativamente a resolução que podemos esperar quando reconstruímos a composição das comunidades ecológicas, quando fazemos correlações bioestratigráficas ou quando interpretamos padrões biogeográficos com base nos icnotaxa dinossaurianos” (Farlow e Chapman 1997).  

Algumas implicações do “pessimismo” de Farlow:

1. Grandes pegadas tridáctilas idênticas na forma e dimensão encontradas em rochas com idade semelhante e em locais afastados não terão necessariamente produzidas por teropodes pertencendo a um mesmo clade.

2. Pegadas tridáctilas de grandes dimensões, que em termos morfológicos podem ser incluídas num mesmo icnotaxon, podem ter sido produzidas por grandes teropodes que não estavam relacionados de perto, pertencendo portanto a clades distintos.

3. A utilização de icnotaxa de grandes teropodes para correlações intercontinentais “é um procedimento que deve ser feito com consideráveis e redobrados cuidados”.

4. “A utilização de taxa baseados em pegadas na paleoecologia e bioestratigrafia necessita de uma atribuição segura dos produtores de pegadas” (Smith e Farlow 1996). Como a identificação dos produtores destas pegadas tridáctilas de grandes dimensões, mesmo que com a mesma idade, não pode ser realizada, a sua utilização deve ser restringida.  

 

De acordo com estes argumentos, a presença do mesmo icnogénero em dois ou mais continentes só fornecerá evidência convincente para ligações intercontinentais e correlação bioicnoestratigráfica apenas e só se as pegadas encontradas nas diferentes regiões forem colocadas no mesmo icnogénero porque as semelhanças na morfologia do pé espelham a reflectem características derivadas partilhadas que indicariam que os autores das diferentes regiões serão membros de um clade monofilético. Assim, e para o icnotaxon Megalosauripus, teríamos de “ter confiança que os grandes teropodes da América do Norte responsáveis estavam relacionados mais de perto com os produtores Euroasiáticos" (e Africanos, tendo em conta as recentes descobertas em Marrocos e no Zimbabwe) "deste icnogénero do que qualquer deles estava com outros tipos de grandes teropodes” (Farlow e Chapman 1997). E estes investigadores sugerem que é duvidoso que as morfologias das pegadas possam fornecer este grau de resolução taxonómica.

 

Lockley (1997, 1998, 2000) tem vindo a rebater estes pontos de vista «pessimistas» de Farlow e de Farlow e colegas. “As pegadas têm uma utilidade significativa na bioestratigrafia” (Lockley 1997). “As pegadas de vertebrados têm distribuições definíveis no espaço e no tempo. A sua potencial enorme distribuição geográfica torna-as úteis para a bioestratigrafia” (Lockley 1998). “Podemos ir longe na direcção de mais conhecimentos de icnofaunas e icnofacies, descrevendo e definindo simplesmente os icnotaxa e agregados icnotaxonómicos. Isto é, em parte, o conceito de icnofacies, que não precisa de um conhecimento do produtor para ser posto em prática” (Lockley 2000). Lockley (2000) refere que para o Jurássico médio da América do Norte e da Europa encontramos o distinto icnogénero teropodiano Carmelopodus em depósitos exactamente com a mesma idade; a identificação recente (Meyer e Monbaron 2002) deste icnogénero em estratos com a mesma idade de Marrocos reforça esta sugestão. E que a associação Megalosauripus - Therangospodus é definida para os inícios do Jurássico superior da América do Norte, Europa e Ásia. “Esta evidência tem implicações para a existência de pontes terrestres entre estes continentes ao longo do Jurássico” (Lockley 1997). Este investigador acrescenta que esta correlação pode ser realizada, mesmo sem termos uma certeza sobre os produtores destes três tipos de pegadas, para além de ser inferido que devem ser teropodes. “Podemos fazer bioestratigrafia sem sabermos a afinidade dos fósseis índex, como foi feito durante muito tempo com os conodontes” (Lockley 2000). De facto, “só Megalosauripus é atribuído a um determinado grupo taxonómico ao nível de família; e isto sem grande segurança” (Lockley 2000). Lockley (2000) realça que se um ou mais destes icnogéneros vier a sofrer alteração em relação à afinidade dos autores, isso não irá mudar “a importância destes agregados como um reflexo da distribuição de morfologias distintas de teropodes no espaço e tempo” (Lockley 2000).  

http://www.trieboldpaleontology.com/casts/tracks/index.htm   

Segmento da pista Therangospodus pandemicus, da transição Entrada - Summerville do Utah (Oxfordiano - Kimmeridgiano) (Lockley 1998).

 

Por outro lado, a «segurança» de Lockley em Megalosauripus para demonstrar a utilidade das pegadas de dinossáurios na correlação estratigráfica pode conduzir à eliminação de pegadas morfologicamente incluíveis neste icnotaxon apenas com base numa idade aparentemente «desviada». Por exemplo, para pegadas encontradas perto do limite Jurássico - Cretácico (camadas Purbeck de Inglaterra ou Formação Morrison dos Estados Unidos), o seu critério de pegadas do Oxfordiano - Kimmeridgiano poderá terá um valor duvidoso (Thulborn 2001).

 

E, para a icnozona Megalosauripus - Therangospodus, dois factos favorecem a sugestão de Lockley:

. A inclusão de pegadas no icnogénero Megalosauripus é realizada não só com base na morfologia e dimensões distintas dos icnitos, mas também com base na configuração das pistas que elas integram. “Estudos detalhados, baseados em grandes amostras, revelam que este icnogénero apresenta várias características morfológicas exclusivas, que o permitem distinguir em relação à dimensão, morfologia e padrão de pistas. A pista de Megalosauripus é notavelmente larga e irregular em grande parte da amostra conhecida” (Lockley 2000).

. Quando agregados de pegadas de regiões diferentes partilham vários dos mesmos icnotaxa, as probabilidades destas semelhanças serem fruto do acaso diminuem. É o que acontece com esta correlação icnoestratigráfica proposta por Lockley e colegas para o limite Oxfordiano - Kimmeridgiano, já que muitos dos agregados de pegadas encontrados em jazidas das três regiões, hoje muito afastadas geograficamente, incluem os icnotaxa teropodianos Megalosauripus e Therangospodus, distintos, e com uma exclusão consistente, por exemplo, de pegadas de sauropodes.  

 

Lockley sustenta assim que “distintos icnotaxa caracterizam unidades estratigráficas particulares (e icnofacies) e podem ser utilizadas na correlação palicnoestratigráfica”. “Esperamos que os fósseis tenham extensões estratigráficas restritas em algum grau e consideramos estranho encontrar agregados de pegadas de vertebrados terrestres que tenham extensões prolongando-se ao longo de várias épocas ou períodos” (Lockley et al. 2000). “Os icnotaxa tendem a apresentar extensões estratigráficas restritas, mas vastas distribuições geográficas”. “A maioria dos intervalos estratigráficos com magnitude de duração de estádio ou idade contem icnofaunas distintas” (Lockley 2000). “Correlações com pegadas permitem ligar pegadas a estádios com uma duração de cerca de 7 milhões de anos cada e são tão precisas com qualquer das extensões temporais propostas para taxa dinossaurianos baseados em esqueletos” (Lockley 1998).  

 

Na realidade, a única utilização científica de pegadas que não depende explicitamente da identificação dos produtores é a palicnoestratigrafia. Assim, as pegadas, como os outros fósseis índex vulgarmente utilizados, representam entidades biológicas variáveis temporalmente.

Mas, ao contrário destes indicadores bioestratigráficos, pegadas diferentes nem sempre representam organismos diferentes - podem representar o mesmo organismo sob diferentes condições. E, inversamente, pegadas que parecem representar o mesmo icnotaxon podem, de facto, representar diferentes taxa biológicos. “Para que as pegadas possam ser úteis como indicadores palicnoestratigráficos (=tempo), a fonte de variação tem de ser taxonómica. Assim, as inferências palicnoestratigráficas estão dependentes do rigor e da especificidade das diagnoses icnotaxonómicas. Só a identificação do produtor ao nível do género permite fornecer a apropriada extensão temporal para correlação ao nível de estádio” (Carrano e Wilson 2001).  

Como Lockley e Lockley e colegas sustentam que as correlações estratigráficas ao nível de estádio (ou seja, para durações inferiores a 10 milhões de anos) podem ser feitas utilizando pegadas de dinossáurios, pode-se colocar a questão - qual o nível de resolução apropriado para diagnoses icnotaxonómicas? Farlow e Chapman (1997), Carrano e Wilson (2001), Farlow (2001) sustentam que esta resolução deve ser feita em função das características diagnósticas preservadas nas pegadas e na sua correlação com sinapomorfias osteológicas de um produtor. Se, como as investigações de Farlow sugerem, a informação obtida mesmo a partir de pegadas bem preservadas, como as proporções das falanges, constituem discriminantes pobres, então “as identificações dos produtores ao nível do género nem sempre se justificam, implicando que as identificações dos produtores fósseis sejam geralmente demasiado genéricas para oferecerem segurança e rigor como ferramentas permitindo a correlação ao nível de estádio” (Carrano e Wilson 2001).  

 

Opinião contrária tem Lockley (1998), quando refere que “estas correlações para o Jurássico médio e (para o Jurássico) final mostram intercâmbio alargado de espécies  entre a Europa e Eurasia, depois do início da fragmentação do Pangaea. E correlação tão explícitas para o Jurássico médio e Jurássico final, ao nível de estádio, nunca foram feitas com base em restos esqueléticos de dinossáurios” (sublinhado nosso).  

 

Lucas (2002) salienta que a utilização de pegadas de tetrapodes na “bioestratigrafia e biocronologia (local, regional e global) está repleta de problemas”. Segundo este investigador, “as pegadas raramente permitem uma identificação de género ou espécie conhecidos a partir do registo osteológico. De facto, quase todos os icnogéneros de pegadas de tetrapodes são equivalentes a uma família ou a um taxon mais elevado (ordem, superordem, etc.) baseado em elementos esqueléticos conhecidos”. Se isto acontecer, então é natural que os icnogéneros apresentem extensões temporais mais longas, com um turnover evolucionário aparentemente mais lento do que os géneros baseados em elementos osteológicos.

Lucas (2002)  conclui que as “pegadas não permitem uma subdivisão do tempo geológico tão «refinada» como os elementos esqueléticos”. “Na melhor das hipóteses, uma biocronologia global Devónico - Recente baseada em pegadas de tetrapodes resolve o tempo geológico entre 20 a 40%, tal como acontece com o seu registo osteológico”.  

   

Mas devemos salientar que Lockley (1997, 1998) também refere que, como as pegadas são controladas em algum grau por facies, devemos ter isto em conta quando correlacionamos entre regiões afastadas. “Devemos esperar semelhanças maiores quando correlacionamos entre facies semelhantes e esperar encontrar menos semelhança quando correlacionamos entre facies diferentes” (Lockley 1997). Segundo Lucas (2002), “o registo fóssil das pegadas está muito mais controlado por facies do que o seu registo osteológico. A faixa de facies relativamente estreita para a preservação das pegadas restringe e distorce as facies que podem ser correlacionadas com qualquer bioestratigrafia baseada em pegadas”.

Vários problemas podem ser levantados em relação à questão da correlação para o agregado Megalosauripus / Therangospodus:

. Será que todas as pegadas Megalosauripus representam um único e mesmo género de teropode? Note-se que Lockley (2000) admite que estas pegadas podem apresentar “apenas” uma afinidade taxonómica ao nível da família.  

   

. Se a amostra de grandes pegadas tridáctilas do Jurássico médio de Portugal for incluída em Megalosauripus, e admitindo que a resposta à questão anterior é positiva, isto implica uma redefinição da icnozona, prolongando-a no tempo até, pelo menos, ao limite Batoniano - Bajociano. Passa de um intervalo estratigráfico restrito (Oxfordiano - Kimmeridgiano) para uma extensão temporal rondando os 12 milhões de anos, quase o dobro da dignose original. E se as pegadas do Batoniano inicial de Marrocos forem também incluídas em Megalosauripus, como é sugerido por Meyer e Thuring (2004), a extensão temporal deste icnotaxon alcança o dobro da postulada originalmente. Aceitando a sugestão de Barco et al. (2005) que a icnoassociação Megalosauripus - Therangospodus ocorre em sedimentos do Cretácico inferior (Berriasiano), a extensão temporal deste agregado prolongar-se-á significativamente. Esta redefinição amplia assim significativamente o quadro de estádio para a extensão estratigráfica conhecida para este icnotaxon. E está de acordo, segundo Lockley et al. (1996, 2000) com a extensão estratigráfica conhecida através de elementos osteológicos para Megalosauridae, apesar de Torvosaurus ser conhecido para o Titoniano da América do Norte (e provavelmente de Portugal) e de de Allain (2002) considerar que o clade, por incluir Afrovenator, se terá prolongado, pelo menos em África, durante o Cretácico inferior. E considerando que a pista da jazida da praia do Cavalo não terá uma idade do Portlandiano, como foi sugerido.

http://dinosaur.uchicago.edu/Afrovenator.html

Cladograma filogenético calibrado temporalmente para Spinosauroidea, segundo Allain (2002).

. Com o alargamento temporal da icnozona, deixamos de ter uma correlação ao nível de estádio, implicando eventualmente que os seus autores mais antigos e mais recentes não devem pertencer ao mesmo taxon genérico biológico, já que Dodson (1990) sugeriu que “a longevidade média dos géneros dinossaurianos não parece ultrapassar 1,1 estádios ou 7,7 milhões de anos. E o próprio Lockley assinalou que “podemos prever, portanto, que a longevidade das faunas (LVAs) e icnofaunas pode ser resolvida essencialmente à escala de cerca de 7,7 milhões de anos” (Lockley et al. 2000).  

 

. Como a icnozona é caracterizada por uma associação recorrente de pegadas incluídas nos icnotaxa  Megalosauripus e Therangospodus, a identificação de pegadas cf. Therangospodus  e cf. Megalosauripus na jazida de Pedreira / Amoreira constitui um argumento reforçando o alargamento desta icnozona.  

 

. O problema agrava-se se uma pegada do Jurássico inferior da Polónia, descrita por Gierlinski et al. (2001) não se poder distinguir de Megalosauripus

 

PARA SABER MAIS ...

MEGALOSAURIPUS NO JURÁSSICO INFERIOR ?

 

. A situação pode ainda tornar-se mais complexa se a sugestão de Gierlinski et al. (2001) de que Therangospodus não se pode distinguir de Megalosauripus for aceite.

 

PARA SABER MAIS ...

THERANGOSPODUS, UMA VARIAÇÃO ALOMÉTRICA DE MEGALOSAURIPUS  ?

 

. Se a amostra do Jurássico médio de Ardley for incluída em Megalosauripus, temos uma co-ocorrência deste icnotaxon teropodiano com abundantes pistas de sauropodes, ocorrência rara nas jazidas do Oxfordiano - Kimmeridgiano (e presente em vários níveis do Batoniano inicial de Marrocos, segundo Meyer e Thuring 2004).  

 

A utilização das pegadas nas inferências paleoecológicas

 

Mas Lockley (2000) está de acordo que é importante conhecermos a afinidade do produtor de pegadas e pistas para “podermos interpretar completamente a paleoecologia”, tal como Smith e Farlow (1999?) expressaram: “a transposição conceptual de uma pegada fossilizada para um produtor biológico é necessária para podermos realizar interpretações paleoecológicas com base nos icnotaxa”. E como tem vindo a aumentar a utilização dos icnotaxa para inferências paleoecológicas (sobretudo para unidades em que o registo esquelético é escasso em comparação com o registo icnológico), “a identidade dos produtores de pegadas e pistas deve ser considerada importante” (Farlow 1997).  

 

E voltamos ao «velho problema» - até que ponto os vários icnotaxa (e referimo-nos apenas aos que merecem de facto receber nomes formais, implicando que existe algo de anatomicamente distinto nesses fósseis e, implicitamente, nos seus autores) permitem realmente distinguir com segurança os tipos de animais que os produziram? Podemos referir dois lados do espectro de opiniões. Farlow e Chapman (1997) preferem “errar para o lado da prudência”, preferindo identificações generalizadas do tipo “pegadas de teropodes” ou até “pegadas de dinossáurios bípedes”. Lockley (1999) sustenta que cada vez mais vamos conseguindo apertar o cerco aos autores dos icnotaxa ... “e para muitos deles vamos tendo uma ideia muito razoável da provável identificação dos autores".