PARA SABER MAIS ...

COMPRIMENTO / LARGURA

 

Originalmente, Lockley et al. (1996) caracterizaram as pegadas Megalosauripus como apresentando uma razão comprimento / largura variando entre 1,35 e 1,64, salientando que as impressões dos dígitos apresentam largura consistente ao longo do seu comprimento (contra fusiformes ou adelgaçando-se na extremidade distal, como acontece noutros icnotaxa teropodianos). Lockley et al. (2000) referem que Megalosauripus é diagnosticado por pegadas alongadas, em que as impressões dos dígitos exteriores são quase paralelas e dirigidas para a frente, implicando que o ângulo total de divergência II - IV seja relativamente baixo e que a largura total das pegadas seja proporcionalmente diminuta.  

A partir dos dados publicados por Lockley et al. (2000), inferimos que para 35 pistas Megalosauripus (número não indicado de pegadas) da América do Norte, a razão entre comprimento e largura ronda 1,32 (variando entre 1,11 e 1,67). Esta razão, para 23 pistas Megalosauripus da jazida de Khodja-Pil Ata (Turkemenistão) é de cerca de 1,15 (número de pegadas de 1178) (variando entre 1,04 e 1,34). Lockley et al. (2000) não se referem a esta diferença, que sugerimos poder ser significativa. “Grandes pegadas bem preservadas de teropodes do Jurássico final da Formação Summerville ... não se distinguem praticamente do material da Ásia Central”.  

Poder-se-ia argumentar que esta diferença na relação comprimento / largura poderia estar relacionada / ser dependente das maiores dimensões da amostra asiática. Mas, de facto, apesar das pegadas do Turkemenistão incluírem exemplares de grandes dimensões, o comprimento médio desta imensa amostra ronda os 48,8 cm, número que se deve aproximar do observado na amostra da América do Norte, provavelmente 45 cm.  

Pegadas do Jurássico final das Astúrias, que poderão ser incluídas em Megalosauripus (Lockley et al. 2000) apresentam valores da razão comprimento / largura variando entre 1,44 e 1,58 (comprimento entre 52 e 44 cm).

Uma pegada do Jurássico final da Polónia com 43 cm de comprimento, que Gierlinski e Niedzwiedzki (2002) consideram poder ser incluída em Megalosauripus, apresenta uma razão comprimento / largura de 1,43.

Para Megalosauripus teutonicus Lockley et al. (2000) referem um comprimento e largura de 63 e 53 cm, respectivamente, resultando numa razão de 1,19.  

Relativamente à amostra de pegadas tridáctilas do Jurássico final de Portugal que Lockley et al. (2000) sugerem poder ser incluída em Megalosauripus, temos os dados seguintes:  

. Para a amostra da jazida da Ribeira do Cavalo, Lockley et al. (2000) forneceram apenas dados referentes à “pegada gigantesca” (comprimento de 77 cm e 60 cm de largura), com razão comprimento / largura de 1,28 (assinalada pela seta). Mas, Santos (1998) indica para esta pegada um comprimento de 70 cm, de que pode resultar uma relação comprimento / largura inferior. Infelizmente, este estrato com abundantes pegadas tridáctilas, muitas delas organizadas em pistas, ruiu e ficou totalmente destruído. Segundo Santos et al. (1995) e Santos (1998), o único molde realizado é de uma pegada de mão de sauropode, da única pista não atribuída a teropodes: “Das pegadas da Ribeira do Cavalo restam agora, para a posteridade, as fotografias, os esquemas e o contramolde em latex de uma das pegadas de sauropode”, embora Lockley et al. (2000) refiram que ficou também registado em acetato o contorno da grande pegada tridáctila. Lockley et al. (1994) apresentaram um mapa das pegadas observadas, que Santos (1998) considerou como “os melhores exemplos de pegadas tridáctilas de Megalossaurídeos”.  

 

Pegada referida como B (escala: 25 cm).

A partir do mapa publicado por Lockley et al. (1994), podemos estimar a variação entre a razão comprimento / largura para a amostra de pegadas tridáctilas como estando compreendida entre 1,1 e 1,6. 

De qualquer modo, é de salientar que o comprimento destas pegadas tridáctilas apresenta também uma grande variação, já que as de menores dimensões não ultrapassariam 25 cm de comprimento. Se todas elas forem incluídas em cf. Megalosauripus, então estamos perante as mais pequenas (e a maior) pegadas incluídas neste icnogénero que se conhecem a nível mundial, contrariando em parte a diagnose proposta por Lockley et al. (1996, 2000), que sugere que esta amostra inclui pegadas com um comprimento mínimo de 25 cm.

Pista assinalada com o nº 2 por Lockley et al. (1994) (escala: 1 m).

 

. Para a pista da jazida da praia do Cavalo (comprimento médio das pegadas de 66,7 cm), a partir dos dados fornecidos por  Dantas et al. (1994) calculamos o valor médio comprimento / largura em cerca de 1,19.

. Para duas pegadas consecutivas in situ do Cabo Mondego (comprimento de 60 cm e largura de 50 cm), este valor ronda  também 1,20.

 

. Para algumas das pegadas em exposição no Museu do Instituto Geológico e Mineiro e provenientes também do Cabo Mondego, a razão comprimento / largura (excluindo, quando observada, a impressão do hallux) parece ser bastante variável: entre 1,0 e 1,78.

 

. Para a amostra de pegadas tetradáctilas preservadas como epirrelevo do Cabo Mondego, que Lockley et al. (2000) incluíram em Eutynichnium lusitanicum, e não considerando a impressão do hallux, a razão comprimento / largura varia entre 1,37 e 1,54.

   

O que se passa para a amostra do Jurássico médio de Portugal?  

. Jazida de Pedreira / Amoreira

A razão comprimento / largura para uma amostra de 16 pegadas é de 1,21. Mas parecem ser detectáveis duas classes: para as pegadas que integram as pistas 1 e 3 este valor é de 1,13 e 1,14 e para a amostra restante é sempre superior a 1,27, variando entre 1,28 e 1,43.

   

. Jazida de Algar dos Potes

A razão comprimento / largura é bastante elevada, 1,41 para uma amostra de 30 pegadas, com variação entre 1,29 e 1,73, mas com grande parte da amostra em torno do valor médio. Esta constitui a amostra em que o valor desta razão apresenta menor variabilidade, o que pode estar relacionado com a menor diversidade de dimensões globais.  

 

. Jazida de Vale de Meios

A grande abundância de pegadas reflecte-se também na maior diversidade de dimensões globais. Para o “morfotipo mais comum”, a razão comprimento / largura aproxima-se de 1,3 (N = 84), com variação entre 1,05 e 1,58. Para as pegadas que incluímos no “morfotipo B”, o valor médio é de 1,43 (N = 12). Considerando a amostra global, a razão é de 1,32 (N = 96).  

 

 

Para a amostra de grandes pegadas tridáctilas do Jurássico médio, incluindo especialmente as pegadas das jazidas de Ardley e de Skye, não possuímos dados que permitam estimar a razão entre o comprimento e largura, impedindo portanto a comparação com a amostra de Portugal.

http://www.scottishgeology.com/classic_sites/locations/ancorran.html

http://www.discoveringfossils.co.uk/Dinosaurpaths.htm

 

Para as pequenas pegadas tridáctilas do Jurássico médio da Bacia de Bighorn, e segundo os dados fornecidos por Kvale et a. (2001) podemos inferir uma razão aproximando-se de 1,33 (N = 17). 

Para a amostra descrita por Lockley et al. (1998) e incluída em Carmelopodus, a razão média para uma amostra de 43 pegadas é de 1,19.

 

A relação comprimento / largura média para um total de 142 pegadas do Jurássico médio de Portugal aproxima-se de 1,33. Se não considerarmos as pegadas de Vale de Meios que incluímos no «morfotipo B», este valor ronda 1,31, já que para as 12 pegadas consideradas este valor é de 1,43.

Comparando estes valores com os obtidos para a amostra Megalosauripus do Jurássico superior, verificamos que:

. é perfeitamente idêntico ao valor obtido para 32 pistas da América do Norte (1,32)

. é superior ao valor médio encontrado para a ampla amostra (N = 1178) do Turkemenistão

. é também muito semelhante a uma amostra de 45 pegadas da Europa (1,28), incluindo Astúrias (N = 2), Polónia (N = 1), Alemanha (N = 6) e Portugal: Ribeira do Cavalo (N = 20), Cabo Mondego (N = 5) e praia do Cavalo (N = 11)

O que reforça a sugestão de que esta amostra do Jurássico médio de Portugal pode ser incluída no icnogénero Megalosauripus.

 

Tendo em conta que o ângulo de divergência total das pegadas que incluímos no «morfotipo B» é superior ao da restante amostra proveniente das jazidas de Algar dos Potes e de Vale de Meios, uma razão comprimento / largura superior à média reforça a sugestão de que estes icnitos devem representar um morfotipo distinto.