PARA SABER MAIS ...

CAMPTOSAURIDAE

http:flood.nhm.ac.uk/cgi-bin/dino/detail.dsml?Genus=Camptosaurus

http://dinosaur.uchicago.edu/EvolutionFrame.html

11 - ORNITHOPODA

12 - Euornithopoda

13 - Iguanodontia

14 - Ankylopollexia

15 - Styracosterna

16 - Hadrosauriformes

17 - Hadrosauroidea

18 - Hadrosauridae

Os camptossaurídeos, que surgem no Jurássico final da América do Norte (Gilmore 1909) e Inglaterra (Galton 1980), são os mais primitivos dos ankyllopolexianos (contra Bakker et al. (1998), que sugerem que são dryossaurídeos de construção robusta), os primeiros ornitopodes medindo mais de 3 m de comprimento. São também os primeiros ornitopodes com focinho bastante alongado, provavelmente para aumentar a quantidade de alimento vegetal apanhado e processado, e os primeiros com duas fiadas de dentes funcionais em ambas as maxilas, dispostos uns sobre os outros num padrão alternado, de forma a formarem uma única unidade mastigadora. Os membros anteriores eram bastante mais curtos do que os posteriores, mas permitiriam uma progressão quadrúpede.  

Sereno (1986) tinha definido Ankylopollexia como um taxon baseado em ramo, que incluiu todos os iguanodontianos mais avançados do que Dryosauridae. Na sua diagnose do grupo, este investigador assinala como características avançadas a ocorrência de carpos parcialmente fundidos em dois blocos, um associado com a extremidade distal do rádio e o outro com a extremidade distal do cúbito e a modificação do metacarpo I da mão num espigão.

Norman (1998) instituiu o clade Camptosauria, praticamente com a mesma definição de Ankylopollexia (Sereno 1986).

Norman (1998) forneceu uma diagnose de Camptosauridae. Entre as características derivadas, estão a presença de um dígito I da mão curto, divergente, terminando por um ungual subcónico, sendo os dígitos dominantes os II e III (este perdeu uma falange), que terminam por unguais aplanados dorsoventralmente. Segundo Norman (1998), os dígitos da mão apresentam capacidade de hiperextensão, sugerindo que poderiam ser utilizados no suporte do peso em postura quadrúpede.

Geralmente, é considerado que Camptosauridae  terá sido destronado pelos iguanodontídeos logo nos inícios do Cretácico inferior.

http://www.cretaceousfossils.com/non_cretaceous/ dinosaurs.htm

Marsh (1879) erigiu Camptonotus dispar com base num esqueleto parcial encontrado numa jazida perto de Como, Wyoming, Formação Morrison, do Jurássico final (Kimmeridgiano - Titoniano). Como o nome Camptonotus já estava ocupado, deu-he o nome de Camptosaurus, baseando neste material a nova família Camptosauridae.

Marsh (1879) diagnosticou originalmente Camptonotus como possuindo membros anteriores com cerca de metade do comprimento dos posteriores,  cinco dígitos funcionais na mão, fémur mais longo do que a tíbia, metatarsos curtos, pé com três dígitos funcionais (com um dígito I rudimentar e com um metatarso V muitissimo reduzido), ossos dos membros ocos. Mas das características apontadas como diagnósticas apresentam uma muito maior extensão em Ornithopoda e não são consideradas válidas (por exemplo, a grande maioria dos ornitopodes Cretácicos têm um fémur mais longo do que a tíbia; e Dodson (1980) mostrou que a ocorrência de ossos longos ocos dos membros é apenas uma indicação de animais juvenis).

www.twoguysfossils.com/ dino_jurassicbones.htm

   

http://www.twoguysfossils.com/ dino_jurassicbones.htm

Três possíveis espécies válidas de Camptosaurus (C. dispar, C. prestwichii e ?C. depressus) foram reconhecidas por Galton e Powell (1980), que readiagnosticaram a espécie tipo com base no material holótipo e também no material parátipo (cintura pélvica e membro anterior).

Dodson (1980) forneceu uma nova diagnose do género Camptosaurus, referindo as características “pé curto, robusto”; “metatarsos e dígitos do pé alargados”.

Entretanto, novo material da América do Norte, quase todo encontrado também no Wyoming, tem sido referido a Camptosaurus dispar.  

http://www.nmnh.si.edu/paleo/ dino/campto.htm

A forma mais antiga diagnóstica é Camptosaurus prestwichii (Hulke 1880), do Kimmeridgiano inicial de Inglaterra. Galton e Powell (1980) referiram Iguanodon prestwichii, a que Seeley (1888) deu o nome de Cumnoria prestwichii, a Camptosaurus, como a nova espécie C, prestwichii. Esta espécie baseia-se num esqueleto bastante completo encontrado perto de Oxford, que Galton e Powell (1980) consideram ser uma forma mais graciosa do que C. dispar (por exemplo, enquanto que o pé de C. dispar é descrito como “massivo”, o de C. prestwichii é referido como “esguio”).  

Comparação entre os esqueletos do pé esquerdo de Camptosaurus dispar (à esquerda) e de C. prestwichii (à direita), segundo Galton (1980) (escala: 10 cm).

Até essa altura, C. prestwichii representava o único membro conhecido do género fora da América do Norte, fornecendo evidência de uma “ponte terrestre” durante o Jurássico final entre este continente e a Europa. Segundo Galton e Powell (1980) a divergência evolucionária entre as duas espécies estaria mais relacionada com o tempo em que estiveram isoladas do que com a distância geográfica.

? Camptosaurus depressus, descrito originalmente por Gilmore (1909), baseou-se em material esquelético muito incompleto proveniente de sedimentos do Barremiano da Formação Lakota, South Dakota. Galton e e Jensen (1978) atribuíram tentativamente um dente dentário encontrado no mesmo nível a esta espécie e sugeriram que ela deve ser considerada provisoriamente como válida.

Miller (1964) descreveu dois fémures encontrados em sedimentos do Cretácico inferior do Arizona, “partilhando muitas características com Camptosaurus”.

 

Material esquelético isolado do Kimmeridgiano - Titoniano, incluindo um fémur praticamente completo encontrado na Praia do Caniçal (Lourinhã) foram referidos a Camptosaurus sp. por Galton (1980). Mateus e Antunes (2001) descreveram uma nova espécie de Camptosauridae, Draconyx loureiroi, com base em material (incluindo dentes, vértebras caudais, alguns elementos dos membros anterior e posterior) encontrados em sedimentos do Jurássico final do Vale de Frades (Lourinhã). Estes investigadores incluem como material parátipo o fémur da Praia do Caniçal (a distância entre as duas jazidas é de cerca de 1 km). Estão presentes os metatarsos I - IV, “sendo o I vestigial”, com 5,3 cm de comprimento e muito menos robusto do que os outros metatarsos (por exemplo, o metatarso III tem 17, 5 cm de comprimento). É provável que o exemplar de Draconyx tenha dimensões inferiores às do holótipo de Camptosaurus dispar (em que o metatarso III tem cerca de 20 cm de comprimento).  

http://www.dinodata.net/lusodinos/CP/pdf/MateusAntunes2001Draconyx.pdf.pdf

Fémur que Galton (1980) atribuiu a Camptosaurus sp. e que Mateus e Antunes (2001) sugerem pertencer ao camptossaurídeo Draconyx (escala: 5 cm).
Material esquelético do holótipo de Draconyx loureiroi, segundo Mateus e Antunes (2001).

 

Dantas et al. (2000) referiram a ocorrência de um esqueleto incompleto de um pequeno Iguanodontia basal encontrado numa jazida do Jurássico superior da região da Lourinhã (Porto das Barcas). A fórmula falangeal deste ornitopode é de 2 - 3 - 4 - 5 - 0, mas “tal como acontece por exemplo em Camptosaurus”, o dígito I “apresenta-se muito reduzido e é apenas vestigial”.

   

Rauhut (2000) sugeriu que três dentes encontrados na mina da Guimarota (Kimmeridgiano da região de Leiria) terão afinidade iguanodontiana, embora tenha salientado que os “dentes destes animais não são tão diagnósticos como os dos hyspilofodontídeos, de forma que não podem ser referidos a um género ou espécie”. Sugeriu que “representam provavelmente um animal semelhante a Camptosaurus”, representando provavelmente uma das mais antigas ocorrências do grupo. Subsequentemente, Rauhut (2001) referiu que estes três dentes podem também ter pertencido a um hypsilofodontídeo dryossaurídeo.

Dente maxilar de um iguanodontiano indeterminado, segundo Rauhut (2000) (escala: 1 mm).

Marsh (1896) sugeriu que um Camptosaurus dispar adulto poderia alcançar os 6 m de comprimento, com uma altura de anca entre 90 e 120 cm. Carpenter (http://www.cmnh.org/dinoarch/2003Aug/msg00247.html) referiu que um esqueleto de Camptosaurus atinge os 8,13 m de comprimento total. Colbert (1962) sugeriu que um indiduo adulto poderia pesar cerca de 400 kg. Paul (1988) referiu que um animal adulto seria mais pesado, cerca de 1,7 toneladas. Aplicando o método polinomial de Seebacher (2000), estimamos o peso em cerca de 1400 kg, para um indivíduo com cerca de 6-7 m de comprimento.

http://www.jy-muggeridge.freeserve.co.uk/ dinomeat_campto.htm

   

Benton et al. (1997) relataram a presença de uma “pequena espécie de camptossaurídeo” representada por algumas centenas de pequenos ossos (sobretudo falanges e vértebras), na jazida de Cornet, do Barriasiano da Roménia, a que não atribuíram nome formal. Esta ocorrência de um pequeno ornitopode não deve espantar, já que a fauna de Cornet fornece evidência da sua natureza insular, onde as faunas são tipicamente “anãs”. Por exemplo, o maior húmero deste ornitopode tem 21 cm de comprimento, enquanto que o mesmo osso de um exemplar adulto de Camptosaurus da América do Norte tem entre 30 e 40 cm de comprimento. O mesmo acontece com as falanges, entre 4 e 5 cm de comprimento, enquanto que os mesmos elementos de Camptosaurus de Inglaterra têm 7 cm e de Camptosaurus da América do Norte têm 7,5 cm de comprimento.

Numa revisão do material esquelético encontrado no depósito de bauxite do Berriasiano final – Valangiano inicial (Dragastan et al. 1988) de Cornet, Roménia, Posmosanu (2002) sugeriu que um fragmento neurocranial, originalmente atribuido a Dryosaurus sp. (Jurcsak e Papa 1983), depois referido a Valdosaurus canaliculatus (Jurcsak e Kessler 1991), “pertence a uma espécie de Camptosauridae, assemelhando-se a Camptosaurus no padrão dos foramina para os nervos craniais (Gilmore 1909)”. Um úmero esquerdo, um rádio fragmentado, metatarsos e vértebras, que Jurcsak e Kessler (1991) tinham atribuído a  Iguanodon  cf. mantelli (e que Norman 1986 considera Iguanodon atherfieldensis) “podem pertencer a um pequeno iguanodontídeo ou ao mesmo camptossaurídeo de que se conhece o neurocrânio” (Posmosanu 2002).

Norman e Barrett (2002) redescreveram “Iguanodon  hoggii (Owen 1874) do Grupo Purbeck (Berriasiano) do sul de Inglaterra e atribuíram o material a uma nova espécie,  Camptosaurus hoggii.  Mas estes investigadores salientam que a “posição sistemática deste taxon deve ser considerada provisória, porque o holótipo não possui características diagnósticas não ambíguas e porque a colocação filogenética dos géneros com os quais mostra maior afinidade é, neste momento, fluida”. Ao mesmo tempo, colocaram em causa os taxa “Iguanodon” fittoni, I. dawasoni, Camptosaurus depressus.  

Camptosaurus hoggii  representa um ornitopode com grande afinidade com as formas do Jurássico final C. presdtwichii (Inglaterra), C. dispar (América do Norte). É descrito como um ornitopode de dimensões médias e construção robusta (3 - 5 m de comprimento total). “Provavelmente, o dígito I do pé não alcançava o solo, mas apresenta um  metatarso bem desenvolvido, esguio e curvo e duas falanges curtas, mas bem desenvolvidas terminando por um ungual estreito mas aplanado dorsoventralmente” (Norman e Barrett 2002). Estes investigadores referem que C. hoggii é “uma forma transitória, tanto na forma como no tempo, entre os camptossaurios do Jurássico final e os iguanodontídeos do Cretácico inferior da Europa, Ásia e América do Norte.  

 

São poucas as pegadas e pistas que têm sido atribuídas a Camptosauridae e praticamente todas nem sequer têm sido incluídas em icnotaxa diagnosticados. Aparentemente, alguns destes icnotaxa nem sequer serão válidos, como Camptosaurichnus fasolae (Casamiquela 1966 e Casamiquela e Fasola 1968), da Formação Banos del Flaco (Chile), do Jurássico final, que Sarjeant et al. (1998) consideram ter sido produzido por um teropode. 

Como a descrição de Casamiquela e Fasola foi considerada pobre (por exemplo, com ausência de esquemas, fotografias de baixa qualidade e, até, com erros de continuidade), Sarjeant e colegas sugeriram que, como é típico das icnoassociações do Jurássico final, a amostra incluída em Camptosaurichnus fasolae teria origem teropode.

Moreno e Rubilar (1997) reanalisaram algumas das pistas atribuídas a C. fasolae e outras não incluídas na descrição de Casamiquela e Fasola,  sugerindo que as pistas revelam a passagem de dois tipos de ornitopodes, mantendo a icnoespécie C. fasolae, embora não tenham inferido, como o nome sugere, uma origem camptossaurídea.

http://www.mnhn.cl/img/fotosgde/f_pa5pisada1.jpg

 

Fotografia e esquema da pista 3 Parabrontopodus frenki, dominada pelas impressões dos pés (escala: 50 cm) (retirado de Moreno et al. 2003). http://www.geocities.com/dinohuella/Termas.htm

Fotografia e esquema da pista 8 A Parabrontopodus frenki, dominada pelas impressões dos pés (escala: 50 cm) (retirado de Moreno et al. 2003).

Note-se que as pistas surgem num estrato calcário onde originalmente Casamiquela e Fasola identificaram várias pistas pertencentes ao novo icnotaxon Iguanodonichnus frenki  que, como o nome sugere, teria também afinidade ornitopode.

Relativamente a Iguanodonichnus, a interpretação original das pistas como tendo afinidade iguanodontídea esteve relacionada com alguns factores:

. a aparente bipedia

. a grande dimensão das pegadas

. a rotação externa do eixo central das pegadas, na altura sugerida como sendo típica dos ornitopodes

. a identificação do ângulo de passo muito baixo (inferior a 110º), igualmente sugerido na altura como característico dos ornitopodes de grandes dimensões

. a datação sugerida na altura para o nível com icnitos - Cretácico inferior (Klohn 1960) - altura em que os grandes iguanodontídeos já estavam presentes.  

Posteriormente, os trabalhos de Biró-Bagóczky (1984) permitiram uma datação mais precisa, e diferente, da Formação onde surge a icnofauna, que foi interpretada como tendo sido depositada durante o Jurássico final (Titoniano).

Vários investigadores colocaram em causa a afinidade ornitopode das pistas Iguanodonichnus, sugerindo mesmo que os seus autores teriam sido sauropodes. Quer as características referidas para estas pistas, quer a sua idade levaram Santos et al. (1992), Farlow (1992), Lockley et al. 1994, Moreno e Rubilar (1997) e Sarjeant et al. (1998) a reinterpretarem a afinidade das pistas, sugerindo que os seus autores teriam sido sauropodes. A explicação para a aparente bipedia seria simples - uma sobreposição total das pegadas das mãos pelas impressões dos pés do mesmo lado do corpo. Moreno e Rubilar (1997) analisaram in situ as pistas Iguanodonichnus frenki, descrevendo-as e esquematizando-as e consideram que esta espécie deveria ser considerada como um nomen dubium. Sugerindo que  as pistas são do tipo narrow-guage, incluíram a amostra na nova combinação Parabrontopodus frenki. Segundo Moreno e Rubilar (1997) e Moreno e Pino (2002), foram identificadas neste nível 3 pistas Parabrontopodus frenki, todas dominadas pelas impressões dos pés, que apresentam um comprimento médio de 62 cm e uma largura  média de 35 cm. O ângulo de passo varia entre 102 e 94º, com uma média de 98º. A passada média é relativamente curta (1,65 m), de onde resultam estimativas de velocidade baixas para os sauropodes: entre 1,8 e 2,9 km / h (aplicando o factor 4 para a estimativa da altura da anca).  

A Formação Banos del Flaco apresentará assim uma icnocenose de ornitopodes, sauropodes e teropodes que difere da clássica  icnofacies Brontopodus. A icnofacies Brontopodus, típica de plataformas calcárias de paleolatitudes baixas (entre 30º S e 30º N), depositadas em ambientes semi-áridos, é dominada pelas impressões de sauropodes e de grandes teropodes (comprimento médio superior a 30 cm). Segundo as análises dos investigadores Chilenos (Moreno e Rubilar 1997, Moreno 2000; Moreno e Pino 2002), na Formação Banos del Flaco, do Jurássico final, ocorre uma icnocenose derivada de uma associação de ornitopodes, teropodes e sauropodes. Todos os inferidos ornitopodes e teropodes são indivíduos relativamente pequenos (o comprimento das pegadas é sempre inferior a 30 cm). Apesar da icnofacies Brontopodus ter sido definida para icnocenoses dominadas pelas pistas wide dos sauropodes, existem alguns exemplos em que surgem pistas narrow, Parabrontopodus, como é o caso da jazida de Banos del Flaco. Mas a co-ocorrência com pistas de pequenos teropodes e especialmente de ornitopodes é mais rara e, eventualmente, poderá estar relacionada com a paleolatitude dessa região - cerca de 45º S.

http://www.grinpach.cl/termas_flaco.htm

 

http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0716-02082002000200003&lng

=es&nrm=iso&tlng=es#Casamiquela1968

Esquema da distribuição, orientação e sentido das pistas que ocorrem na  jazida de Banos del Flaco, com inferência da afinidade de cada uma. A sugestão de Moreno e Pino (2002) de que as pistas Camptosaurichnus fasolae têm origem ornitopode, tal como a amostra atribuída a ornitopodes médios e pequenos, levou-os a concluir que para esta icnocenose a relação entre o número de herbívoros e de carnívoros é de 3,1 para 1(retirado de Moreno e Pino 2002).

 

Para as 6 pistas que estes investigadores consideram como representando a passagem de ornitopodes e que mantiveram na icnoespécie  Camptosaurichnus fasolae, todas bípedes, as impressões dos pés tridáctilos apresentam consistentemente um comprimento bastante superior à largura - 1,37. O comprimento varia entre 17 e 24 cm e a largura entre 12,5 e 17 cm, respectivamente. O ângulo de passo médio é de 160º, com os valores extremos de  147 e 175º. A passada varia entre 1,182 e 1,820 m (com um valor médio de 1,430 m). Como Moreno e Pino consideram que a amostra terá sido produzida por ornitopodes, para a estimativa da altura da anca aplicam o factor 4,8, tal como proposto por Thulborn (1989), de forma que a velocidade de progressão estimada varia entre 4,3 e 7,5 km / h (com uma média de 5,33 km / h). Note-se que se estas pistas fossem consideradas como tendo origem teropode, o factor a aplicar para a estimativa da altura da anca seria, seguindo Thulborn (1989), de 4,5, resultando estimativas de velocidades (ligeiramente) superiores.

 

Esquema da pista 1, atribuída a Camptosaurichnus fasolae, que Moreno e Rubilar (1997) e Moreno e Pino (2002) consideram como tendo origem ornitopode (retirado de Moreno e Pino 2002).

Fotografia de uma das pegadas que integra a pista 10, que Moreno e Pino (2002) incluem também em Camptosaurichnus fasolae (retirado de Moreno e Pino 2002).

http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0716-02082002000200003&lng

=es&nrm=iso&tlng=es#Casamiquela1968

 

Moreno e Pino (2002) consideram ainda que se podem distinguir, no mesmo nível, 4 pistas de "ornitopodes médios" e 2 pistas de "pequenos ornitopodes", embora não tenham atribuído um nome formal a estas formas nem as tenham distinguido explicitamente das pistas Camptosaurichnus fasolae (também não foram apresentados esquemas ou fotografias destas amostras). Segundo os dados fornecidos, as pegadas dos ornitopodes médios apresentam um comprimento médio de 21 cm e uma largura média de 18 cm (a relação comprimento / largura média é de 1,19). O ângulo de passo médio de três destas pistas é de 151º, com uma passada média de 1,54 m. Voltando a aplicar o factor 4,8 na estimativa da altura da anca, resultam estimativas de velocidade de progressão variando entre 5,4 e 6,1 km / h, com uma média de 6,0 km / h.

As pegadas atribuídas aos pequenos ornitopodes têm comprimento e largura médias de 14 e 11 cm, respectivamente, com uma razão média de 1,32. O valor do ângulo de passo para uma única pista (o indivíduo de menores dimensões, com um comprimento do pé de 13 cm) é de 168º, com uma passada média de 1,61 m, a que corresponde uma estimava de velocidade de 10,6 km / h, continuando a aplicar o factor 4,8 na estimativa da altura da anca.  

Moreno e Pino (2002) identificaram no mesmo estrato 3 pistas de "teropodes médios" e outras 4 pegadas de "pequenos teropodes". Para o primeiro destes grupos, as pegadas têm um comprimento e largura médios de 24 e 25 cm (razão média comprimento / largura de 0,95). Para duas das pistas o ângulo de passo médio é de 129º e a passada média é de 1,550 m. Aplicando o factor de 4,5 para estimativa da altura da anca, a velocidade de deslocação média ronda os 5,75 km / h.

Para os teropodes pequenos, Moreno e Pino referem 4 pegadas isoladas, mas suficientemente afastadas para representarem animais distintos, com um comprimento variando entre 16 e 20 cm (média de 18 cm) e uma largura compreendida entre 16 e 18 cm) (média de 17 cm) (razão comprimento / largura média de 1,06).

Pegadas de teropode pequeno e de teropode médio.

http://www.geocities.com/dinohuella/Termas.htm

 

Sem uma descrição formal dos diferentes morfotipos atribuídos a ornitopodes e sem qualquer esquema destas pegadas, é impossível tentarmos refutar as sugestões de afinidade taxonómica propostas por Moreno e Pino (2002). De qualquer modo, tal como Sarjeant et al. (1998) tinham sugerido, os valores das razões comprimento / largura para as pegadas atribuídas a ornitopodes estão muito mais perto do que é típico encontrarmos para as pegadas de origem teropode. Por outro lado, os dados fornecidos, quer relativos aos parâmetros métricos das pegadas e pistas, quer angulares das pistas, não parecem permitir uma distinção nítida entre a amostra que permanece incluída em Camptosaurichnus fasolae e a amostra, aparentemente distinta, incluída nos "ornitopodes médios" e nos "pequenos ornitopodes":

                                          L                W            L / W            Ang. passo          Passada / L

Camptosaurichnus           21               15          1,4                    160º                      6,81

Ornitopode médio            21               18         1,17                   151º                      7,33

Ornitopode pequeno        14               11         1,27                   168                      12,38  

Posteriormente, Moreno et al. (2003) referiram que Camptosaurichnus fasolae é caracterizado por "pegadas de pés com três dígitos e pegadas de mãos com forma de meia-lua". Segundo estes investigadores, algumas das pistas encontradas neste nível "pertencem a duas espécies diferentes de ornitopodes, C. fasolae e a uma morfologia do pé mais arredondada (40% mais larga)".

Segundo Moreno et al. (2003) as pistas atribuídas a teropodes "pertencem a duas espécies de teropodes, uma pegada de dimensões médias, com comprimento entre 22,5 e 26,5 cm e 25 cm de largura, e uma pegada de menores dimensões, medindo entre 16 e 20 cm de comprimento, largura compreendida entre 16 - 18 cm e com um dígito médio (III) muito maior ("larger") do que os dígitos laterais funcionais (II e IV)".  

http://www.grinpach.cl/termas_flaco.htm

                                           

As mais antigas pegadas atribuídas a camptossaurídeos foram encontradas na jazida de Ravat, Tadjiskistão, descoberta por Romanovsky (1882) e que Sikstel (1952) considerou datar do limite Jurássico inferior / Jurássico médio. Actualmente é considerada por Lockley et al. (1996) como datando de meados do Jurássico médio. Rozhdestvensky (1964) descreveu sucintamente alguns dos tipos de pegadas encontradas num mesmo nível, incluindo, para além de pegadas tridáctilas "grandes e pequenas" atribuídas a teropodes e "pegadas arredondadas com 4 ou 5 dígitos e uma grande impressão de calcanhar, que podem pertencer a dinossáurios quadrúpedes do tipo stegossaurio", "pegadas tridáctilas com dígitos robustos e um dígito médio de comprimento moderado, em que não são visíveis impressões de garras e com a impressão do calcanhar alargada". "Estas pegadas podem de facto pertencer a ornitopodes grandes e maciços do tipo camptossaurio".  A dimensão das pegadas varia entre 20 e 25 cm e mais, e a distância de um «passo» ronda 1 m".

?

Infelizmente, não possuímos a figura 5 publicada por Rozhdestvensky (1964), em que este investigador apresentou um esquema das pegadas da jazida de Ravat que atribuiu "a ornitopodes do tipo camptossaurídeo".

 

À esquerda, pegada identificada como Dinehichnus sp., do Jurássico superior da Polónia (segundo Gierlinski et al. 2001). À direita, pegada do Jurássico superior da Formação Morrison, segundo Bakker (1996) (não foi fornecida escala).
Gierlinsky et al. (2001) referem uma pegada com impressão do hallux, do Kimmeridgiano da Polónia, identificada como Dinehichnus sp., como podendo ter origem camptossaurídea. Esta pegada, com a impressão de um hallux, com 18 cm de comprimento por 19 cm de largura, é muito simétrica, com ângulos II - III e III - IV idênticos (40 e 41º, respectivamente). Mas Gierlinsky et al. (2001) salientam que as razões entre os comprimentos dos dígitos (II / III = 1,35 e III / IV = 0,75) se assemelham aos valores (1,32 e 0,78, respectivamente) que ocorrem numa pegada relatada por Bakker (1996) do Jurássico final da Formação Morrison e que este investigador atribuiu a um ornitopode dryossaurídeo.  

 

Mateus e Antunes (2001) referem que “duas pegadas de ornitopodes encontradas em 1999 em Porto Escada (Jurássico final da região da Lourinhã) podem ter sido produzidas por indivíduos desta espécie”, o camptossaurídeo Draconyx loureiroi, mas não fornecem dados sobre estas impressões.  

Mais tarde, Antunes e Mateus (2003) forneceram a primeira fotografia de uma destas duas pegadas, sem indicação da escala utilizada e não as descrevendo. A observação das duas impressões, patentes na Exposição "Dinossauros chegaram ao Porto" (Novembro 2003), sugere um comprimento entre 26 e 28 cm, para uma largura rondando 26,5 - 28 cm, respectivamente.

Por vezes, ocorrem numa mesma Formação associações de pegadas e restos esqueléticos de dinossáurios. Se os esqueletos e as pegadas ocorrem juntos numa mesma unidade sedimentar é natural que suspeitemos que possa haver relações. Esta suspeição pode ser testada comparando as dimensões e morfologia das impressões com o esqueleto autopodial de pés (e mãos) dos animais encontrados. Uma correspondência vincada entre as pegadas e o esqueleto pode indicar que esses dinossáurios seriam os autores das pegadas. Mas, trata-se de uma possibilidade, com mais ou menos probabilidade, dependente do grau desta correspondência, e não de um veredicto final. "Pegadas deste horizonte ... revelam um soberbo grau de variação, tanto na morfologia como no grau de preservação. Estas anomalias servem para enfatizar os perigos envolvidos quando pretendemos atribuir as pegadas a determinadas espécies, sem termos material adequado e em número suficiente" (Baird 1957).

Mesmo colocando de lado a dimensão (grandes pegadas não podem ter sido produzidas por pequenos animais), lembremo-nos que dois dinossáurios muito distanciados filogeneticamente podem ter produzido impressões muito semelhantes. E até agora nunca se encontraram restos esqueléticos de dinossáurios no final de uma pista ...

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Issue_1,_Pages_1-117_(1_January_2003)&_auth=y&view=c&_acct=C000050221&_

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Pegadas tridáctilas preservadas como epirrelevos convexos num estrato originalmente argiloso, a que se sobrepõe um estrato arenítico de origem fluvial, cujas areias preencheram as depressões deixadas pelos animais e que são as responsáveis pela preservação dos respectivos moldes, foram relatadas por Milàn (2003) e ocorrem no Jurássico final (finais do Kimmeridgiano) de Porto das Barcas (Lourinhã). Com comprimento e largura  semelhantes (25 - 33 cm e 23 - 37 cm, respectivamente), "impressões de dígitos relativamente curtos e arredondados, não terminando por garras" , um conjunto de 5 pegadas, bem como outras impressões  idênticas que "podem ser reconhecidas ao longo de vários quilómetros deste mesmo horizonte", foi atribuído por este investigador a ornitopodes. Segundo Milàn, "a má preservação impede a sua inclusão num determinado icnogénero", pelo que a sua atribuição a um determinado clade de ornitopodes é problemática. As pegadas 4 e 5 do esquema apresentado por Milàn, bastante simétricas, parece apresentarem impressões de dígitos com extremidades distais relativamente esguias e o ângulo de divergência II - IV parece ser bastante elevado, características que, mesmo não ocorrendo a impressão de um hallux, podem corresponder à anatomia autopodial do pé dos camptossaurídeos. Mas a grande profundidade das pegadas (variando entre 12 e 7 cm) implicaria que um saliente dígito I tocasse no substrato, deixando a respectiva impressão. Por outro lado, as dimensões (comprimento de 33 e 25 cm, respectivamente) sugerem que o maior destes ornitopodes teria uma altura de anca rondando 1,9 m (h = L x 5,8), valor bastante superior ao conhecido para o maior esqueleto de um camptossaurídeo. 

Esquema de três das pegadas tridáctilas atribuídas a ornitopodes e descobertas num estrato argiloso de Porto de Barcas (Lourinhã) (retirado de Milàn 2003).

 

Moratalla et al. (1988) sugeriram que uma pista encontrada na jazida de Valdeté (Prejano, La Rioja), do Hauteriviano, terá afinidade camptossaurídea. Não conhecemos os seus argumentos para justificar esta atribuição, mas é provável que uma das razões resida na elevada razão comprimento / largura (1,31) das pegadas tridáctilas que a integram, cujas impressões dos dígitos curtos e relativamente largos terminam de forma arredondada, com ângulo interdigital total baixo (49,2º). Moratalla et al. (1988) estimam a altura de anca do autor da pista em 1,75 m, embora este valor deve estar subestimado, já que aplicando apenas o factor 5, a altura da anca aproximar-se-ia de 2,10 m, sugerindo um ornitopode com pelo menos 7,5 m de comprimento total. Esta proximidade com um autor camptossaurídeo foi confirmada por Moratalla e Sanz (1997) e por Moratalla (2002).  

As pegadas tridáctilas incluídas por Sternberg (1932) no icnogénero Gypsichnithes, dos finais do Cretácico inferior  de Peace River, Canadá, foram atribuídas por este investigador “a dinossáurios bípedes, herbívoros, semelhantes a camptossaurios ou a iguanodontes”. Bird (1939) atribuiu estas pegadas a um iguanodonte. São muito semelhantes a pegadas que Marsh (1899) descreveu para o Jurássico superior do Dakota Sul (Formação Morrison), inferidas como tendo origem camptossaurídea. Mais tarde, Lockley (1986) e Lockley et al. (1986), ao analisarem o registo icnológico encontrado na jazida de Purgatoire River (Jurássico final da Formação Morrison, Colorado), interpretaram pegadas com morfologia semelhante como tendo origem ornitopodiana (cf. Camptosaurus). Em análises posteriores,  Lockley e Prince (1988) e Prince e Lockley (1989) atribuíram estas pegadas a teropodes, com base nas seguintes considerações:

. não eram conhecidas pegadas atribuídas a ornitopodes do Jurássico final com estas dimensões

. não eram conhecidos elementos esqueléticos de ornitopodes do Jurássico final que sugerissem a existência nesses tempos de herbívoros deste grupo com dimensões consistentes com as das pegadas

. o facto de muitas destas pegadas não revelarem nas extremidades distais dos dígitos as típicas impressões de garras dos teropodes deve ser um fenómeno “controlado pela qualidade da preservação” e não deve constituir “um factor decisivo na sua identificação como impressões de ornitopodes” (Lockley et al. 1997)

. o passada típica destas pistas  é proporcionalmente elevada, sugerindo um autor teropode

Podemos ainda acrescentar que a relação comprimento / largura para uma amostra de 29 pegadas Gypsichnithes pacensis, é bastante elevada, rondando 1,19 (McCrea e Sarjeant 2001), afastando-se do que é de esperar encontrar em pegadas de ornitopodes.

Estas reinterpretações conduziram a que, para o Jurássico final da Formação Morrison, a esmagadora maioria das pegadas tridáctilas tivesse continuado a ser atribuída a teropodes, resultando que as impressões de ornitopodes estariam virtualmente ausentes nesta Formação.  

     

http://www.cretaceousfossils.com/vertebrates/dinosaurs/

big_ornithopod_tracks_1.htm

http://www.cretaceousfossils.com/vertebrates/dinosaurs/big_ornithopod_tracks_2.htm

Recentemente, foram descobertas novas pistas de dinossáurios bípedes na parte inferior da Formação Glen Rose, Texas (Cretácico inferior). Algumas destas pistas integram pegadas tridáctilas referidas ao icnogénero Gypsichnites, que continua a ser atribuído a camptossaurídeos por alguns investigadores. Esta jazida ainda não foi descrita.

 

Hatcher (1903) reconheceu as primeiras pegadas de dinossáurios encontradas na Formação Morrison do Colorado, tendo apresentado uma fotografia de uma pegada, provavelmente encontrada perto de Garden Park. Só a partir de 1991 é que outros icnitos foram encontrados nesta região. Segundo Harris (1998), a “pegada de Hatcher”, de que só existe uma réplica, tem 9,3 cm de comprimento por 9,9 cm de largura, com ângulo de divergência II - IV rondando 88º, com impressões de 4 dígitos curtos e largos, terminando de forma arredondada, sem evidência de garras distais. Os 4 dígitos apresentam comprimento quase idêntico. O “calcanhar” é alargado e quase semicircular. Estas características levaram Harris (1998) a inferir que se trata de uma impressão de mão de um camptossaurídeo, já que a mão de Camptosaurus, apesar de pentadáctila, apresenta o dígito V reduzido e elevado, que numa postura quadrúpede, não deveria tocar no solo.  

http://www.pvisuals.com/dinosaur_museum/ fossils/campto_hand.html

Pegada de Garden Park (escala: 5 cm) e comparação entre esta pegada e o esqueleto da mão direita de Camptosaurus (segundo Harris 1998).

Uma lage com duas pegadas tridáctilas, encontrada perto do Centro de Visitantes de Garden Park, descoberta recentemente, foi também analisada por Harris (1998). A mais nítida das pegadas, com impressões dos três dígitos subparalelas, tem 42,5 cm de comprimento por 32 cm de largura (proporções típicas das pegadas geralmente atribuídas a teropodes). Mas as impressões dos dígitos terminam de forma arredondada, sem vestígios de garras; e o “calcanhar” é alargado, com forma de U. O que levou Harris (1998) a sugerir que a pegada tem afinidade ornitopodiana, “sendo até provável que tenha uma origem camptossaurídea”. E Pittman, em comunicação pessoal a Harris (1998), salientou que os ornitopodes primitivos (bem como os teropodes) podem ter deixado pegadas “grallatorídeas”, em que os dígitos II e IV se curvam para dentro, na direcção do dígito III, o que se observa nesta pegada.  

Pegada isolada de Garden Park, que Harris (1998) sugere representar um pé camptossaurídeo. Segundo Harris 1998 (escala: 5 cm).

  

Pegada encontrada na jazida de Purgatoire River, redesenhada por Harris (1998) a partir de MacClary (1938) (sem escala fornecida). Segundo Harris 1998.

Pegada encontrada na jazida de Purgatoire River, redesenhada por Harris (1998) a partir de Lockley et al. (1986). Segundo Harris (1998) (escala: 5 cm).

Harris (1998) refere que algumas das pegadas do Jurássico final da Formação Morrison, incluindo as impressões de Purgatoire River reeinterpretadas como tendo como autores teropodes, apresentam semelhanças morfológicas com a pegada de Garden Park. Entre elas, estão duas outras pegadas, que Harris (1998) também sugere como tendo origem camptossaurídea, já que, não sendo conhecido material iguanodontídeo ou hadrossaurídeo para o Jurássico final e tendo estas impressões afinidade ornitopodiana, só restam, entre os maiores ornitopodes desses tempos, os membros deste clade. Harris (1998) reconhece que “esta é evidência negativa e não é, de modo nenhum, conclusiva”.

De facto, foi Marsh (1899) que ilustrou e descreveu as primeiras pegadas de dinossáurios encontradas na Formação Morrison, provenientes de South Dakota (Harris 1996). Duas delas foram atribuídas a “grandes ornitopodes, possivelmente Camptosaurus”. Numa destas pegadas tridáctilas (na figura), a razão comprimento (44 cm) / largura (41 cm) é de 1,07; o dígito III é largo e não se aguça distalmente, sem evidência de garra.  

 

Young (1960) e Zhen et al. (1989) descreveram o icnogénero Yangtzepus, do Jurássico final da China, para incluir pegadas morfologicamente semelhantes (comprimento de 29 cm e largura de 15,5 cm) às que Harris sugere terem origem camptossaurídea, que atribuíram a um ornitopode indeterminado. E pelo menos uma impressão de mão parece estar associada com estas duas pegadas tridáctilas, sugerindo (originalmente) uma progressão quadrúpede.

Pegada tridáctila incluída na icnoespécieYangtzepus yipingensis, dos inícios do Jurássico final da China (segundo Zhen et al. 1989).

   

Antunes (1976) referiu que na jazida dos Lagosteiros (Hauteriviano) se encontram pegadas, algumas parecendo integrar duas pistas, com afinidade “problemática de um bípede de pequena dimensão (talvez um ornitopode relacionado com Camptosaurus”, “menos provavelmente” um Iguanodon juvenil. Uma destas pegadas tridáctilas tem comprimento e largura de 20,5 e 21,5 cm, respectivamente, com “unhas mal impressas” e “dedos curtos”; “aparentemente, a impressão do calcanhar” é “mais acentuada do que a dos dedos”. Segundo Antunes (1976), a passada é longa (entre 1,5 e 1,9 m).  

 

Mesmo tendo em conta as mais recentes investigações que sugerem a continuidade no Cretácico inferior da linhagem camptossaurídea (Benton et al. 1997; Norman e Barrett 2002; Posmosanu 2002), é muito provável que as suas pegadas fossem de dimensão inferior à dos típicos iguanodontídeos, com impressões dos dígitos com extremidade distal mais pontiaguda. Segundo Gierlinski e Sabath (2002), “ocasionalmente o hallux poderá também ter ficado impresso (e preservado)”, opinião partilhada por Leonardi e Mietto (2000): "É pouco provável que no género Camptosaurus o dígito I, muito curto e colocado numa posição elevada, tivesse significado funcional e pudesse deixa a sua impressão no solo, salvo no caso de pegada excepcionalmente profunda". 

 

PARA SABER MAIS ...

PEGADAS DE GRANDES ORNITOPODES NO JURÁSSICO INFERIOR ?

Andrews e Hudson (1984) relataram a primeira pegada de dinossáurio descoberta na Escócia, proveniente da Formação Lealt Shale  (Jurássico médio) da Ilha de Skye. Trata-se de uma pegada tridáctila, mal preservada, com 47 cm de comprimento e 55 cm de largura (Clark 2002 -2003). Lockley e Meyer (1999) referem que “dada a preservação imperfeita, estas medidas são apenas aproximações” e sugerem que, tendo em conta que como não existem ornitopodes do Jurássico médio (nem pegadas atribuídas a membros deste grupo) que produzissem pegadas com estas dimensões, “a interpretação de uma afinidade teropode parece razoável”. Clark ( 2002-2003), tal como Andrews e Hudson (1984) e Delair e Sarjeant (1985), sugeriu que o seu produtor terá sido “um ornitopode semelhante a Camptosaurus”. Este investigador refere que em 1996 foram encontradas várias pegadas tridáctilas de menores dimensões num bloco localizado perto dessa pegada, mas em sedimentos da Formação Valtos Sandstone (também do Jurássico médio).  

http://www.hmag.gla.ac.uk/neil/Skye/Skye2002/Ancorran/index.html

 

Em 2002, foi encontrada uma pegada tridáctila, num bloco solto de arenito carbonáceo, na Baía de Staffin, também na Ilha de Skye, provavelmente proveniente da Formação Duntulum, do Jurássico médio (Batoniano). Segundo Clark (2002-2003), esta “pegada tem 24 cm de comprimento e é uma versão em ponto pequeno da pegada da Formação Lealt Shale, provavelmente produzida por um pequeno dinossáurio ornitopode”, embora o comprimento seja (ligeiramente) superior à largura. O ângulo interdigital II - IV é de 82º. Suspeitamos que esta pegada poderá ter origem tireoforana, constituindo a impressão de um pé de um destes ornistiquianos, eventualmente um stegossaurio.

De facto, tanto em termos dimensionais como em relação à morfologia global, esta pegada assemelha-se muito a uma pegada do Jurássico superior da Polónia que Gierlinski e Sabath (2002) http://app.pan.pl/acta47/app47-561.pdf atribuíram a um pé stegossaurio, bem como a uma pegada do Jurássico superior da Formação Morrison (Utah), que Bakker (1996) sugere ter origem stegossauriana. Se esta inferência estiver correcta, então estamos perante uma impressão de pé esquerdo, já que, tipicamente, o dígito II do pé stegossauriano é o mais longo, terminando pela falange ungual de maiores proporções, sendo o dígito IV o de menores dimensões.  A atribuição destas pegadas a tireoforanos é ainda reforçada pela presença de material esquelético deste grupo encontrado num bloco calcário da Formação Bearreraig Sandstone (inícios do Bajociano), na baía de Bearreraig, ilha de Skye. De facto, Clark (2001) atribuiu as partes proximais de um cúbito e de rádio a um Thyreophora, stegossaurídeo ou ankillossaurídeo.  

É interessante referir que, pouco tempo depois, uma equipa liderada por Clark encontrou no mesmo local mais de 15 pegadas tridáctilas, de maiores dimensões (comprimento entre 32 e 53 cm), com impressões de dígitos esguios e ângulo interdigital II - IV médio de 52º, que terão origem teropodiana, segundo Clark (2002; 2002-2003).

http://www.gla.ac.uk/publications/newsletter/ 240/html/news18.html

 

Pegada tridáctila do Jurássico médio da ilha de Skye, Escócia. Clark (2002 - 2003) sugere que a pegada poderá ter origem camptossaurídea (retirado de Earth Heritage, Winter 2002 - 2003).

 

PARA SABER MAIS ...

PEGADAS E PISTAS DE TIREÓFOROS  

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ENORMES PEGADAS DE ORNITOPODES NO JURÁSSICO SUPERIOR ?