JAZIDA DE ALGAR DOS POTES   I

"Possuímos muito mais pegadas de dinossáurios 

predadores do que esqueletos".

Paul 1988

Em 28 de Dezembro de 2001, deslocámo-nos a Pé da Pedreira para observar e fotografar  as pegadas ali descobertas. Estas informações destinavam-se a integrar o Projecto subsidiado pelo Programa Ciência Viva “O Registo fóssil dos Teropodes no Mesozóico Português” (PV - 0006). Vários trabalhadores das pedreiras da zona conheciam e indicaram-nos a localização da jazida de Algar dos Potes. Trata-se da “pedreira de Manuel João”, hoje desactivada, onde apenas sobraram cerca de 6 dezenas de pegadas tridáctilas bem preservadas (“patas de galináceos”, como são referidas por estes trabalhadores) de uma amostra que seria, sem qualquer dúvida, muito mais ampla.  

 

PARA SABER MAIS ...

OUTRAS REFERÊNCIAS

 

A amostra de pegadas tridáctilas de grandes dimensões que encontrámos na jazida de Algar dos Potes surge preservada em pelo menos três níveis calcários distintos, dos inícios do Batoniano, embora não seja aparente variação, quer nas dimensões, quer na morfologia geral.

Coordenadas geográficas - não são fornecidas neste momento em face do eventual processo de classificação desta jazida que estará a decorrer.

 

 

PARA SABER MAIS ...

HISTORIAL BREVE ...

 

No nível intermédio encontramos mais de 50 pegadas, dificilmente integráveis em pistas. Algumas apresentam um bom estado de preservação, incluindo também contra-moldes, onde são discerníveis as almofadas falangeais (especialmente para os dígitos II e III), que revelam a típica fórmula falangeal 2 - 3 - 4 dos teropodes.  

 

Se incluirmos as falanges unguais, apesar do maior número de falanges (5) no dígito exterior IV do que no dígito interior II (3 falanges), que se observa tanto em teropodes não avianos como na maioria das grandes aves terrestres, os comprimentos somados destes dígitos são quase iguais. Contudo, esta simetria não é observada na maioria das pegadas bem preservadas atribuídas a teropodes. A impressão produzida pelo dígito II é normalmente mais curta do que a do dígito IV, de onde resulta um entalhe (indentição) conspícuo ao longo da margem medial das pegadas (A). A margem posterior da pegada dos teropode parece ter sido produzida por uma almofada por debaixo da articulação metatarso-falangeal do dígito IV. A almofada digital mais proximal de ambos os dígitos II e III, que normalmente está registada nas pegadas, estaria situada debaixo da articulação entre a primeira e a segunda falanges desses dígitos. Para produzir pegadas com esta morfologia, as articulações metatarsofalangeais dos dígitos II e III teriam de estar elevadas acima do solo, enquanto que o dígito IV era impresso ao longo de todo o seu comprimento. Daqui resulta a assimetria da porção proximal (posterior) da pegada, observada em grandes e pequenas pegadas de teropodes.  

Também é típico de muitas pegadas de teropodes uma ligeira curvatura sigmoidal para dentro da porção distal do dígito III (B) em relação ao eixo longo deste dígito central.

   

Esta amostra analisada inclui apenas pegadas tridáctilas alongadas e assimétricas, com comprimento e largura variando entre 63 e 47 cm e entre 48 e 30 cm, respectivamente. As impressões dos dígitos são consistentes na largura ao longo de todo o seu comprimento (não se adelgaçam ou tornam pontiagudas) e terminam por impressões de unguais (falange da garra) relativamente pouco longos e robustos, alargadas na base (zona proximal). O ângulo interdigital II - IV tem um valor médio bastante baixo : 46,3º (N = 24).

De facto, os teropodes tendem a apresentar falanges médias mais longas em comparação com outros dinossáurios potencialmente bípedes tridáctilos; mas também exibem um padrão de falanges unguais proporcionalmente mais curtas do que, por exemplo, os ornistiquianos (Farlow e Lockley 1993; Farlow e Chapman 1997).  

Para a amostra de 52 pegadas apenas conseguimos identificar, com segurança, um segmento de pista, que inclui as pegadas 1, 2 e 3. Os passos consecutivos medem 1,45 e 1,42 m, para uma passada de 2,75 m. O ângulo de passo ronda os 155º.  

 

Esta jazida revela portanto a passagem de grandes teropodes bípedes digitígrados. Quando dizemos que os teropodes caminhavam “sobre os dígitos” isto significa que os metatarsos não contactavam o solo, excepto na articulação metatarsofalangeal. A extremidade proximal das pegadas de teropodes pode ser chamada de “calcanhar” apenas para fins descritivos, mas esta região da pegada não foi produzida por um calcanhar anatómico, que normalmente estaria elevado acima do substrato. Assim, o termo «calcanhar» deve ser considerado coloquial, já que esta parte da pegada foi impressa, em grande parte ou totalmente, pela sola do pé (metatarsus) e não pelo verdadeiro calcanhar anatómico. "No entanto, o termo está tão entranhado na literatura sobre pegadas de dinossáurios que dificilmente será abandonado" (Thulborn 2001). E quando analisamos pegadas não nos devemos esquecer que elas reflectem também e/ ou sobretudo a carne que revestia os ossos do pé produtor.  

Pé direito do teropode Allosaurus (retirado, com autorização, de Martin 2001).

 

PARA SABER MAIS ...

JAZIDA DE ALGAR DOS POTES II